Para Sempre Em Cimabaixo

…no vôo 7459 da Gol saindo de Buenos Aires e com destino a Florianópolis. Começo in medias res — até porque estou cansado1. Sei que muitos de vocês me seguem desde o vê sê pode. Que outros se juntaram na época do dayloggers. Sei que há assistintes experientes e alguns novatos lendo estas linhas. Busco, desta forma: didática, se quiserem chama-la assim, contar o que me aconteceu nos últimos três quase quatro meses.

Juro que não foi proposital. Não foi proposital. Proposital. Gradualmente comecei a ficar cansado da figura que tinha criado tanto na internet como naquela que costumamos chamar de vida “real”. Tudo parece errado. Meu TCC tomou conta dos meus pensamentos — e da forma mais terrível de todas: o pânico. E tudo começou a parecer negativo. Um circulo. Um espiral de coisas que, claro, giravam entre elas; se encontravam conversavam e se davam o direito de rir da minha cara enquanto eu ficava cada vês menos convencido com meu “eu”.

Esse “buraco”, entendi, depois de muitas conversas com minha amiga Camila, minha terapeuta Silvia e meu Psiquiatra Henrique, era o que conhecemos como depressão2. Seja lá o que essa palavra queira, de fato, transmitir. Eis aqui a minha tentativa: acho que é o contrario de calor, assim como para Buda a iluminação é a ausência do sofrimento. Para mim a depressão é a ausência de calor. Você fica ali, tomando frio, sem saber por que nem para quem e continua ali se congelando cada vez mais. Se a experiência é boa, olá3.

Mas quero voltar à ideia de percepção: Em um montanha russa as depressões são a melhor parte. Quando alguém me abraça as partes que ela “deprime” são as mais gostosas de todas. Como em com todas as coisas, e nessas frases que falam tudo e ao mesmo tempo de nada, minha perspectiva era a que estava deprimida. Minha forma de ver o mundo era a de pegar um civic velho mandar algumas coisas se foder pegar um pedaço de bandeira qualquer e sair por ai me juntando a protestos onde, certamente me serviriam alguma comidinha de estrada4. Mas Silvia disse: Vai, corre logo para esse lugar, eu te espero, volta quando estiveres cansado. Depois de caminhar dez dias vi que tinha avançado bem pouco. Foi ai que percebi a agua, ou, no nosso caso, o ar5.

Caso eu pudesse fazer vocês sentirem o que é a depressão — algo que nunca faria — eu lhes diria que imaginassem um ser querido caindo de uma escada e batendo diferentes partes do corpo e sangrando e cada vez mais machucados. Conseguem pensar em isso? Isso dói, né? Multiplique isso por um milhão e eleve à um milhar, é disso que estamos falando. Não de stress ou de casaco estamos falando de querer morrer a cada segundo em que se respira. De querer destruir tudo. De ferir, a nos e, mais triste aos que mais querem nos acompanhar.

Estou escrevendo isto do lado da minha mãe, que como rainha acompanhou todo este processo, e sinto nela o desgaste do que foram estes últimos seis meses. A coisa foi barra pensada. Passamos por vários medicamentos. Alguns não faziam nada. Outros era altamente alucinógenos. Dos diazepínicos testei, acredito, todos os que estão entre a lista dos dez mais vendidos. Nas doses mínimas e, logo logo, máximas. Noites sem dormir. Deitando de a puchitos como falamos na Argentina quando se dorme em pedacinhos. Pedacinhos pequenos que faziam muito mais mal do que bem. Falaram na possibilidade de uma intervenção hospitalar. Foi só ouvir isso que peguei uma tesoura e fiz a única coisa que tive coragem de fazer no momento (preciso abrir um espaço aqui para avisar que eu estava na banheira tomando uma ducha para tentar de me acalmar e quando meu vo deixou de me vigiar peguei a tesoura forte com as duas mão para me cortar, a coisa é que me caguei todo e não fiz nada de alto risco.) cortei o cabelo, a franja. Aquela que me protegia e eu levantava apenas para quem eu queria ouvir.

Muitas outras coisas mais aconteceram no meio. Muitas mesmo. Da uma daquelas bolinhas de alergia no esôfago que sofri. De lembrar. E olha que eu estou falando do tipo de merda que faria Wes Anderson chorar. Lembro que comecei a ficar diferente em janeiro do ano passado. Não dei muita bola. As mãos suavam quando estava em lugares com muita gente e o coração disparava me acordando no meio da noite sem motivo aparente. Tudo sintomas de algo maior. Se há uma mensagem em esta verborragia que seja esta: preste atenção ao seu corpo ele, ao contrario de mim, realmente sabe do que esta falando.

A coisa e que tudo o que passou, passou. E como fala Drexler tudo é apenas “uma luz fugaz, alumbrando desde outro tempo, uma folha que a leva e traz o vento”. Ainda não estou em cem por cem, mas estarei. E, desde Já obrigado pelo carinho que recebo todos os dias na internet. Sempre há algum recado, seja no twitter, Orkut, lastfm, para fazer do meu dia algo mais agradável. Por enquanto ando nadando, jogando basquete6, brincando de pintor, artista poeta.

Abraço e, como sempre, desejo-lhes muito mais do que sorte.


  1. Noto que meus videos estão falando muito sobre viagens… 

  2. Acreditamos, pelo momento que possa ser um transtorno bipolar. Digo acreditamos por que em ciencias como a medicina o teste e erro é fundamental. Especialmente na psiquiatria. 

  3. Amo quem entendeu a refereência, quem não leia isto: http://dft.ba/-n7A 

  4. Ler a descrição sobre depressão que d.f.w dá para o tipo ideal de pessoa depressiva. Vale a pena procurar o texto na integra. 

  5. Silvia, dou-lhe de presente esta nota de rodapé. Numero cinco. Abraço. 

  6. Eis aí a razão da foto… 

“The depressed person confessed to her therapist that when she reached out long-distance to a member of her Support System she almost always imagined that she could detect, in the friend’s increasingly long silences and/or repetitions of encouraging cliches, the boredom and abstract guilt people always feel when someone is clinging to them and being a joyless burden.”
The depressed person, D.F.W

A sua opinião vale 99 centavos?

Eis aqui uma idéia interessante. O Sun chronicle, um jornal de Massachusetts, passara a cobrar 99 centavos dos leitores que desejarem comentar uma de suas matérias. O pagamento acontece apenas no primeiro comentário e é acompanhado de um cadastro que registra, junto com o numero do cartão de credito, o nome e o endereço do leitor.

O que o Sun chronicle quer fazer é estar “frente a frente” com seus leitores e, ainda, tem a coragem de dizer: “put your money where your mouth is”.

Roy Greenslade, jornalista do The Guardian, aponta que esta estratégia infringe a liberdade de expressão dos anônimos.

Contudo, qualquer leitor de blogs e jornais na internet sabe que os comentários anônimos, em sua maioria, costumam ser agressivos e de pouca qualidade argumentativa.

Sempre defendi que é o criador do conteúdo quem tem o direito e liberdade de permitir ou negar as formas de interação que seus leitores tem com o material criado. Acredito que o escritor tem o direito de bloquear os comentários em seu site caso sinta que essa seja a forma mais correta de distribuir o conteúdo de sua criação.

John Gruber, do blog Daring Fireball, não possui nenhum tipo de sistema de comentários em seu blog. Contudo, encoraja que seus leitores escrevam posts, não anônimos, em seus próprios blogs comentando as postagens de seu blog. A idéia de Gruber é apoiar uma conversa corpo a corpo de argumentos bem pensados. Uma postura que respeito e que, constantemente, estou tentado a aplicar.

O Sun chronicle é corajoso. Em um panorama onde os leitores demonstram não terem intenção de pagar para ler artigos online, o jornal aposta em monetizar a vontade de opinar.

Resta acompanhar o desenvolvimento da idéia e ver sé opinar ainda tem algum valor.

— Alberto Lung

You Can’t Always Get What You Want


Falando com milanelli — em um dia desses em que minhas opções de entretenimento são 1) ver Ugly Betty ou quem sabe 2) Entrar no Orkut e ficar criticando as fotos dos meus contatos ou pior ainda 3) dormir às 23:00Hs numa sexta-feira — Chegamos à conclusão de que nem eu nem ela temos aptidão para fracassar.

Assim, quem lê rapidamente pode achar que esta incapacidade é ótima. Até escuto o ingênuo dizer: “Cê não vai fracassar nunca!”. Contudo, a verdade é que a nossa incapacidade de mexer a bunda não nos permite sequer buscar o fracasso.

Sabe, sem me comparar, mas Faulkner ganhou dois prêmios Pulitzer por duas novelas que são consideradas as mais “fraquinhas” dele — sem contar que as escreveu enquanto bebia que nem um desgraçado. Meu melhor trabalho não ganha um aplauso da minha própria mãe.1

E aí eu tento encontrar uma justificativa; vai que ele era assim de criativo por que bebia. Se for, nem para isso sou competente, tomo meio copo de vinho e já estou falando bobagem — e nenhuma delas merece o Pulitzer.2

A coisa é que fracassar é você mais a experiência do fracasso. No nosso caso, onde nem o fracasso existe, a coisa fica no nada mesmo, sem ganhar nem perder.

Como consolo fica o seguinte: Faulkner virou um selo postal de 22 centavos. milanelli e eu, pelo menos, não estamos sendo chupando3 o tempo todo.

— Alberto Lung

(As notas de rodapé são uma cortesia de milanelli)


  1. Afinal ela é uma mulher sã… 

  2. Definitivamente não, o máximo a que chegamos foi assustar nossos sobrinhos enquanto bêbados 

  3. Apesar de não ser uma má idéia, de vez em quando 

Rehab is for quitters, and I want to quit.

Music Quando eu tinha onze anos eu era fanático — cortava fotos e fazia montagem (photoshop dos antigos) e colava na parede do quarto — do Aaron Carter. Quando o sujeito tem onze anos isso é aceitável, a sociedade — aka meus colegas de catecismo — não ficavam me julgado quando eu insistia em mostrar como sabia dançar igual a ele — algo que hoje, vendo os vídeos que a minha tia gravou, sei que é mentira.1

E assim, na boa, me divirto muito sabendo que algum dia gostei de uma musica com esta letra: Hey Girl, I’m sad / I heard that you were leaving / You can’t go, you’re my best friend / I’m sure gonna miss you2

Passado musical que condena todo mundo têm. Se você nasceu nos anos ‘80, e não morou o resto da vida em uma caverna, os Back Street Boys, N’Sync e as Spice Girls fizeram parte da sua adolescência.

O problema, e este post é o primeiro passo do meu Rehab, é que estas ferias baixei o CD do Justin Bieber e o escutei mais vezes do que alguém deveria escutar. Até estou gostando do cover que ele faz do Say that you love me do Cardigans, e, ainda mais pathétique, sei de cor a letra da musica Baybe3

Passado que condena todo mundo têm. Agora, presente fuleiro, isso deixa comigo.

— Alberto Lung


  1. Material que, estou certo, vai aparecer na TV se algum dia virar político. 

  2. Para ver mais desta maravilha poética aqui

  3. Percebe a criatividade nos títulos?