Eu me considero uma pessoa empolgada. Daquelas que de primeira acha tudo legal – na verdade a palavra que uso para descrever tudo, e quem me conhece já me ouviu dizendo-a uma quantia infinita de vezes, é Genial! (com G maiúsculo e ponto de exclamação no final). Não considero isso um defeito, pois me permite apreciar todo tipo de produções; desde o mais rebuscado dos poemas até o mais fútil dos programas de televisão.
Contudo, depois de um tempo, a minha memória se encarrega de “limpar” todas aquelas sinapses que carregam informações que não valem mais a pena ser chamas de geniais. O que quero disser é que apenas aquilo que é realmente bom – dentro de decisões puramente arbitraria e pessoais – fica gravado no meu cérebro.
Tudo isso para falar de uma frase que tenho gravada na testa à muito tempo e que hoje decidiu voltar para me lembrar de verdades que não estou com muita vontade de enfrentar. Eis aqui a frase do poeta Richard Hugo em seu poema Degrees of Gray in Philipsburg:
Original:
“Say your life broke down, The last good kiss you had was years ago.”
Tradução livre e, conseqüentemente, inapropriada:
“Diga que sua vida está em ruínas, O último beijo bom que você teve foi há anos atrás.”
Pensar no meu ultimo beijo bom. Ai, ai.
Para que não sabe, estou escrevendo um livro. É um romance para Jovens/Adultos, e um dos temas que tento abordar e a dicotomia da “moralidade” com a “libertinagem”. Todos têm dentro de si um “eu responsável” e um “eu passional”, acredito que encontrar o centro entre os dois é fundamental para viver uma vida sem arrependimentos e sem magoas.
Mas, me conte. Quando foi seu ultimo beijo bom? E como vocês lidam com a briga da responsabilidade com a “passionalidade”?
Ontem eu e minha irmã estávamos sentados no chão do living olhando as fotos de alguns álbuns velhos, e ela fez um comentário daqueles que me deixam com a bunda inquieta. Com uma foto dela chorando e que dava a impressão de que tinha os olhos tortos disse: “O bom das câmeras digitais e não ter que ficar vendo estas fotos horrorosas”.
Talvez por casualidade, quiçá por causalidade, encontrei no mesmo dia do comentário um folheto que explicava uma função extraordinária das câmeras digitais da Sony. O “Smile Shutter”, que, quando ativado na maquina, detecta que todos os fotografados apareçam sorrindo na foto. Não sei se o comentário que irei fazer é apenas um indicio da minha velhice chegando cedo, mas… Vamos lá.
A foto da minha irmã chorando é feia, não vou negá-lo. Contudo, nos fez rir ao lembramos dos escândalos que ela costumava fazer quando não conseguia o que queria que, diga-se de passagem, não eram os escândalos normais de qualquer criança; uma vez ela até arrancou parte dos cabelos tentando chamar a atenção. A questão é que, ao final de contas ela chorando na foto nos lembrou de momento dos quais, agora, conseguimos rir. O que teria sido dessa foto na era das câmeras digitais? E o que teria sido da foto se o “Smile Shutter” estivesse esperando detectar um sorriso para disparar a foto?
O que me interessa, e preocupa, são os resultados em longo prazo da combinação da geração prozac com a estética comercialmente predefinida e consecutivamente a felicidade fingida sendo plasmada nos ccd’s de câmaras digitais ao redor do mundo. A razão pela qual me preocupo é que acredito que a felicidade é uma meta definida culturalmente cujos parâmetros variam de pessoas a pessoa e, como bem disse o bloggeiro do Observatório da Consciência: “A frustração acontece quando vamos atrás de metas elaboradas por terceiros, e por não termos essa conexão clara com o nosso eu interior, não sabemos discernir se é bom ou ruim para nós.”
Por isso, recomendo a todos tentar fotografar momentos memoráveis, e parar de correr atrás de sorrisos fingidos. Encorajo-os a fotografar o primeiro machucado do seu filho, a primeira caída, o primeiro barraco que fizer em lugar publico. Pois, é também em estes momentos que encontramos lembranças boas, duras, engaçadas, e, quem sabe, felizes.
Feliz ano novo a todos. Chegou o momento do ano em que os blogs se enchem de promessas para o ano que vira. Eu já fiz este tipo de post e me arrependo, pois é, claramente, a melhor forma de mostrar a minha incompetência com as tarefas que me proponho. Por este motivo decidi que este ano em vez de olhar para frente e prometer o que não fiz, olharei para trás e ver tudo o que me fez bem no 2008.
Dayloggers
Foi um ano ótimo para o projeto, adorei compartilhar com os assistintes o resumo semanal da minha vida e ao mesmo tempo poder me divertir conhecendo a Tieli e, agora, a Camila. Fico feliz em ter cumprido a promessa de um vídeo semanal, como bem disse Zé Frank:
“É necessário apertar a criatividade até que saia do cérebro ao papel.”
Escrever
“Writing is like pulling teeth… Out of your penis.” (Jonathan Safran Foer)
Este foi um ótimo ano para mim e minha escrita. Estou terminando meu livro e adorei cada passo do processo. Claro que foi bastante chato em alguns momentos, e estressante em outros, mas cada dia que passa e leio uma pagina terminada me sinto um pouco mais satisfeito comigo. Sem contar que daqui a pouquinho vai sair o meu primeiro Short story que espero leiam e gostem bastante.
Leitura
Li o suficiente para me sentir satisfeito, o que quer disser bastante. Ótimos livros de ótimos autores. E estou muito contente em poder ter lido clássicos como Faulkner e me sentir apto a discuti-los.
O resto
O trabalho foi ótimo, muitas oportunidades e muito bem aproveitadas, so posso esperar um ano igual à este. A faculdade me cansou, irritou porem, me surpreendeu, e cada vez mais aprendo a gostar de coisas que não levava nem em consideração.
Desejo a todos um ótimo ano, e quem sabe vc´s não me contam nos comentários um pouco sobre o que os deixou orgulhosos de vc´s mesmos este ano…