Prozac Shutter

(Photo by: Eric Fleming)
Ontem eu e minha irmã estávamos sentados no chão do living olhando as fotos de alguns álbuns velhos, e ela fez um comentário daqueles que me deixam com a bunda inquieta. Com uma foto dela chorando e que dava a impressão de que tinha os olhos tortos disse: “O bom das câmeras digitais e não ter que ficar vendo estas fotos horrorosas”.
Talvez por casualidade, quiçá por causalidade, encontrei no mesmo dia do comentário um folheto que explicava uma função extraordinária das câmeras digitais da Sony. O “Smile Shutter”, que, quando ativado na maquina, detecta que todos os fotografados apareçam sorrindo na foto. Não sei se o comentário que irei fazer é apenas um indicio da minha velhice chegando cedo, mas… Vamos lá.
A foto da minha irmã chorando é feia, não vou negá-lo. Contudo, nos fez rir ao lembramos dos escândalos que ela costumava fazer quando não conseguia o que queria que, diga-se de passagem, não eram os escândalos normais de qualquer criança; uma vez ela até arrancou parte dos cabelos tentando chamar a atenção. A questão é que, ao final de contas ela chorando na foto nos lembrou de momento dos quais, agora, conseguimos rir. O que teria sido dessa foto na era das câmeras digitais? E o que teria sido da foto se o “Smile Shutter” estivesse esperando detectar um sorriso para disparar a foto?
O que me interessa, e preocupa, são os resultados em longo prazo da combinação da geração prozac com a estética comercialmente predefinida e consecutivamente a felicidade fingida sendo plasmada nos ccd’s de câmaras digitais ao redor do mundo. A razão pela qual me preocupo é que acredito que a felicidade é uma meta definida culturalmente cujos parâmetros variam de pessoas a pessoa e, como bem disse o bloggeiro do Observatório da Consciência: “A frustração acontece quando vamos atrás de metas elaboradas por terceiros, e por não termos essa conexão clara com o nosso eu interior, não sabemos discernir se é bom ou ruim para nós.”
Por isso, recomendo a todos tentar fotografar momentos memoráveis, e parar de correr atrás de sorrisos fingidos. Encorajo-os a fotografar o primeiro machucado do seu filho, a primeira caída, o primeiro barraco que fizer em lugar publico. Pois, é também em estes momentos que encontramos lembranças boas, duras, engaçadas, e, quem sabe, felizes.
Leituras interessantes:
Sobre ser melhor
Por: Merlin Mann

Política, fofoca de celebridades, manchetes sobre a economia, peritos em tecnologia, noticias esquisitas e *user-generated content*
Estes são os brinquedos mascaveis que me tornaram triste, cansado e cínico.
Cada um, da sua maneira, contribuiu ao imperativo de que estamos sempre expandindo nossos portfólios de opiniões fortes e superficiais sobre quase tudo. Ai, devemos postar algo. Em qualquer lugar.
Desde empresas das quais nunca ouvimos, países que nunca visitamos, ate infantes que tiveram a randômica ma fortuna de nascer em famílias que estão na TV - Todos são argumentos para uma piada obvia e um comentário de pouca visão que, pelo menos por alguns minutos, ajuda o autor e o consumidor a se sentirem um pouco menos entediados, um pouco menos vulneráveis, um pouco menos desconectados. Por alguns minutos, de qualquer maneira, nos faz sentir *mais vivos*.
Mas, na minha opinião, o efeito a longo prazo de cada um destes pode ser surpreendentemente diferente.
Aquilo que te faz sentir menos entediado pronto te transforma em um viciado. Aquilo que te faz sentir menos vulnerável pode facilmente te torna um idiota. E as coisas que deveriam te fazer sentir mais conectado, hoje, muitas vezes, são sugadores de tempo - vazios, encorajadores programáticos que montam e refinam a sua personalidade enquanto estas sentado só na frente de uma tela.
Não me entendam mal. Comentar as pontas da cultura popular e eventualmente cuspir uma piada tem uma tradição novel que inclui os melhores trabalhos de Voltaire, Dorothy Parker, Oscar Wilde, e também uma quantia de pessoas que considero bons amigos e editores brilhantes. Não tem nada de mal fazer coisas erradas todos os dias. Mas devemos trazer alguma arte ao ato. Não somente *digitar*.
O que me preocupa são as conseqüências de uma dieta composta majoritariamente de falsas-conexões, insights de fazer de conta e manuscritos sem edição de *tudo*. Estamos nos tornando pequenos. Eu sei que sempre que o percebo, me dou conta de quão pequeno me posso tornar. E isto começou a me desgostar.
Partindo da metáfora da dieta, diria que quero *começar a comer melhor*. Mas, também, quero começar a *cultivar tomates de boa qualidade* - independente do quão fácil possa ser escolhe-lo, empacotá-lo, enviá-lo ou vende-lo. Meu amigo, o tomate é a historia.
Isto não quer disser que vou fazer Liveblogging de um monte de tentativas tolas de desencorajar tudo. Mas quer disser que quero fazer decisões conscientes sobre a qualidade de *qualquer* input que fizer - como também sobre qualquer “coisa” que eu produzir. Tudo. Desde minhas fontes de informação ate a minha programação de entretenimento, do mais efêmero conteúdo na web ate cada email que eu decidir responder. A bosta terá de sumir.
Para ser sincero, não tenho nenhuma agenda que indique o que vou fazer diferente alem daquilo que tento fazer todos os dias:
- Identificar e destruir porcarias de pouco retorno;
- Desligar qualquer coisa que seja mais ruidosa do que beneficial;
- Tomar decisões brutalmente rápidas sobre o que *não* preciso estar fazendo;
- Evitar qualquer coisa que me pareça ser falsa sinceridade (especialmente quanto tem relação com dinheiro);
- Procurar me focar em fazer coisas boas;
- Colocar pessoas reais no centro de tudo.
Tudo o que sei é que quero fazer tudo *melhor*. Melhor, melhor, melhor.
Quero destacar que não tenho planos de parar de fazer piadas “filhas-da-puta” ou xingar pessoas que o mereçam. O que quero é fazer a melhor piada “filha-da-puta” e zombar dos outros de uma forma em que ninguém está esperando. Quero ser o evangelista do trabalho duro e da edição, e quero chegar ao ponto de que isto seja notado em tudo o que faço, crio e compartilho. Sim, mesmo que me faça soar como o cara que simplesmente “não pegou” a piada. Foda-se.
então, sim. Eu vou cortar as viagens do meio-terminado, meio-usado e de idéias pela metade, tanto no que faço como no que consumo. E, com todo o respeito, eu te encorajo à pensar em fazer o mesmo; especialmente se essa dieta do “todo-o-que-voce-pode-comer” produz qualquer coisa que não te faca ser “nota 10”.
Se não estou rindo da sua piada, agradecendo seus insights ou liderando uma ovação de torcida para uma coisa na qual você passou, mais ou menos, 10 segundo criando no seu celular, é provável que não seja por que eu não *te entenda*; Mas sim por que sei que tanto você quanto eu somos capazes de coisas melhores.
Artigo Original: “better”
Nota do tradutor: Diz Bruno Latour, Toda tradução é uma traição. Tive de adaptar muitas das piadas ao longo do texto. Fiz isto tentando ser fiel à aquilo que foi escrito e mantendo a coerência do texto.